Uma carta para o meu pai.

Esse post faz parte da blogagem coletiva do grupo Rotaroots. O Rotaroots tem o objetivo de resgatar a época de ouro dos blogs pessoais, incentivando a produção de conteúdo criativo e autoral, sem ser clichê e principalmente, sem regras, blogando pela diversão e pelo amor.

Pai,

Pensei muito antes de escrever essa carta. Claro, já escrevi várias, mas nunca expus meus sentimentos para que qualquer um pudesse ver, mas, talvez, essa seja a hora. Talvez escrever tudo aqui vá me libertar desses sentimentos, talvez alguém por aí entenda o que eu sinto. Talvez, de alguma forma, essa carta chegue até você.

Esse ano se completam três anos. Três anos desde a última vez que te abracei. Três anos desde a última vez que disse que te amo. Três anos desde nossa última briga. Três anos que você partiu. Mas você não tinha partido muito antes disso?

Seu relacionamento com a minha mãe nunca foi algo exemplar, me desculpe, mas você não foi um homem exemplar. Quando eu ainda era pequena, você saiu de casa. Eu entendo, casamentos as vezes simplesmente não dão certo. Mas o que eu vejo nesse casamento, é uma mulher apaixonada por um homem e um homem apaixonado por si mesmo. Posso ter exagerado, você, afinal, foi um bom pai. Bom.

Tenho poucas lembranças de nossa relação antes de você se mudar, algumas boas, outras, eu preferia que não tivessem existido. Durante minha infância e pré-adolescência, você sempre esteve por perto e foi incrível. Mesmo separado da minha mãe, sempre esteve presente. Me levava pra escola, mesmo sendo na rua de cima de casa; almoçávamos fora nos finais de semana; alugávamos filmes e ficávamos deitados no sofá durante um domingo inteiro; íamos pra Belo Horizonte passear no shopping sempre que era possível. O que eu mais amava era passear de moto. Saíamos de casa as 8 da manhã, chegávamos as 7 da noite, eu sempre estava toda dolorida, mas eram os meus dias preferidos.

Quando eu tinha 12 ou 13, comecei a trabalhar com você. Se eu soubesse que isso iria nos afastar mais do que nos aproximar, teria dito não. Após anos vivendo em casas diferentes, passar 4 horas por dia na companhia um do outro só serviu para desgastar nossa relação. Eu me tornei você. Me tornei uma pessoa sem paciência, fria e egocêntrica e duas pessoas assim, num mesmo lugar, não poderia dar certo. Eu não aguentava mais ser tratada como uma empregada (uma empregada ruim) e você queria que tudo fosse 101% do seu jeito.

Aos 14 eu era uma adolescente – rebelde sem causa – decidi que não aguentava mais e me “demiti”. Ao me demitir da sua empresa, sinto que perdi um pouco de espaço na sua vida. Depois minha avó me contou que você chorou nesse dia, se eu era tão importante assim, porque não conseguimos manter tudo funcionando?

Aos 15 já estávamos distantes. Não fazíamos mais planos para viajar pelo Brasil e pelo mundo. Não fomos em Beo Horizonte nenhuma vez nesse ano. Não andávamos mais de moto. Eu só te via quando ia pra aula de inglês ou quando você precisava que eu fosse no banco. Os finais de semana ao meu lado já quase não aconteciam mais, uma, duas vezes por mês no máximo. Quando te contei do meu namoro, não aprovou, me achou nova, mas pra mim, não importava. Você não fazia questão de estar comigo e isso me fez me afastar ainda mais de você. Nunca vou entender porque.

Ainda me lembro das exatas palavras do meu tio: “Você quer saber o que aconteceu? Seu pai morreu.”. Essas palavras que tiraram o chão dos meus pés, que me deixaram sem rumo. Me lembro de ligar para um amigo desesperada pra que ele fosse chamar meu namorado, porque ele não atendia o telefone e eu precisava de alguém naquele momento. Me lembro de atender seu telefone durante todo o dia repetindo para seus amigos que sim, você tinha morrido. Me lembro de te ver no caixão com aquela roupa que não era nada parecida com o que você costumava usar e querer tirar você dali. Me lembro de segurar o choro perto da minha avó. Eu me lembro de tudo, mas queria esquecer.

Eu passei pelos cinco estágios do luto. Negação. Raiva. Barganha. Depressão. Aceitação. Depois de três anos, a ficha ainda não caiu. Talvez a aceitação não tenha sido tão aceita assim. Escrevo essa carta enquanto assisto no programa Encontro com Fátima Bernardes, filhos reencontrarem seus pais que não vêem há anos e queria que você batesse aqui na porta agora. Eu ainda vejo você em todos os lugares, eu sigo carros achando que você está dentro, eu escuto o barulho das chaves batendo quando você mancava, eu sonho que você não morreu e só estava escondido por todo esse tempo.
Por tudo e apesar de tudo, eu te amo. E te odeio. Te odeio por você ter me deixado muito antes de me deixar. Te odeio porque depois que você morreu, minha vida virou um caos. Te odeio porque vou entrar sozinha na igreja quando me casar. Te odeio porque você não está aqui. Te odeio porque tudo poderia ser diferente.

E eu te amo. Eu te amo porque você me ensinou muito. Eu te amo porque eu sou você. Eu te amo porque eu amava aqueles passeios de moto. Eu te amo porque você, do seu jeito estranho, me amava. Eu te amo porque você era, é e vai sempre ser meu pai – mesmo que nos momentos de raiva eu diga que não.

Eu te odeio e eu te amo. Onde quer que você esteja, tenha um feliz dia dos pais. Espero um dia poder te encontrar de novo. Que a gente possa se sentar, tomar um café e dizer tudo que não foi dito. Que eu possa ouvir de você coisas que eu quero muito saber. Que você entenda porque eu quero apagar a tatuagem que fiz pra você e me perdoe por isso. Espero que esteja bem. Até qualquer dia.

PS:No acidente que te matou, uma pessoa sobreviveu e eu sempre vou culpá-la, não por sua morte, mas por ter te tirado de mim muito antes de você morrer. Eu não sei perdoar e não sei esquecer. E só pra você saber, eu queria conhecer seu outro filho, queria ter contato com ele e passar pra ele as coisas boas que você passou pra mim, ele faz três anos esse ano, mas a mãe dele não compartilha das mesmas vontade que eu.

Wanila

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2 comentários

  1. Imagino o quanto deve ter sido difícil para você escrever essa carta Wanila! Também perdi meu pai há alguns anos e éramos muito grudados… Saudade gigante dele, especialmente nesse dia dos pais, quando todo mundo está focado nisso, só fala nisso… Muito difícil!

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